O aumento das tensões na relação Irã-Arábia Saudita – artigo

18 de setembro de 2019, Augusto Colório. Bruno Lima Rocha e Pedro Guedes

 

No dia 14 de setembro, ataques ocorridos contra as instalações petrolíferas da Saudi Aramco (Estatal Saudita de Petróleo e Gás), localizadas em Abqaiq (Noroeste da Arábia Saudita), sacudiram o mercado internacional de energia e trouxeram os holofotes para o esquecido conflito que assola o Iêmen desde 2015. Nesse ataque, drones (seriam dez segundo relatos de inteligência estadunidense devidamente vazados na mídia) percorreram considerável parte do território saudita e atacaram as instalações da refinaria de Abqaiq, causando considerável dano às instalações e cortando pela metade a produção de petróleo da monarquia árabe [1], responsável por cerca de 40% do PIB do país. Ainda que o governo saudita não tenha identificado até o momento quem teria realizado o ataque, o Movimento Houthi (liderado por Abdul-Malik Badreddin al-Houthi) lançou nota assumindo os ataques [2]. O ataque faz parte de uma série de outros semelhantes causados pelos Houthis a cargueiros, aeroportos e infraestrutura de energia da Arábia Saudita desde o ano passado. Nesse artigo, pretendemos traçar o histórico do conflito e os atores envolvidos para compreender os seus desdobramentos atuais.

Desde 2015, o Iêmen está convulsionado por uma guerra civil que opõe, de um lado, o presidente Abdrabbuh Mansur Hadi (sunita e com bom trânsito nas bases da Al Qaeda na Península Árabe, AQAP), aliado da Arábia Saudita e apoiado por parte das Forças Armadas do Iêmen. Do outro lado, há o Movimento Houthi que segue uma vertente do islamismo xiita chamada de zaidismo (dentro da estratégia iraniana de se aproximar no apoio do ‘xiismo ampliado’) e que se nega a aceitar o governo central controlado por Hadi. No começo do conflito, os Houthis apoiaram grupos armados e militares que fizeram parte do governo do ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh, no entanto, posteriormente, por conta de diferenças políticas, Saleh acabou morto pelos Houthis. Além disso, os Houthis são apoiados pelo partido político Congresso Geral do Povo, por milícias regionais e por seu principal aliado o Irã. Para confundir ainda mais o leitor, a eclosão da Guerra Civil, como visto em outros países da região, facilitou o avanço de grupos como a Al-Qaeda na Península Arábica, que após anos em letargia, se aproveita da guerra civil para se reestruturar e tomar territórios nos país [5], além de grupos menores como o Conselho de Transição do Sul, que busca a independência da parte Sul do país [4].

Logo, o conflito tomou proporções regionais e internacionais. Por conta de seus desdobramentos e da proximidade geográfica, uma coalizão liderada pelos sauditase seguida pelos Emirados Árabes Unidos (UAE) foi formada para combater os Houthis e que conta, além desses dois, com a participação de outros países muçulmanos da região da Península Arábica e Norte da África [3]. Há que se notar que o ouro “compra as lealdades” e boa parte das alianças na monarquia dos Ibn Saud se dá por financiamento direto ou indireto. Por outro lado, o Irã tem dado apoio aos houthis com armas, financiamento e homens, embora Teerã não assuma apoiar os Houthis diretamente[4]. Para entender o recente ataque a refinaria na Arábia Saudita, devemos entender o papel das potências regionais, Irã e Arábia Saudita, na guerra civil do Iêmen, além da dinâmica geopolítica da região do Oriente Médio (na chamada Guerra Fria do Mundo Islâmico, sucessora da Guerra Fria do Mundo Árabe, vencida pela Arábia Saudita e monarquias aliadas), e como um ataque aos sauditas interfere nesse contexto político.

Desde a revolução islâmica de 1979, o Irã busca se estabelecer como uma potência regional e faz isso por meio do apoio a outros grupos xiitas no Oriente Médio, como Houthis no Iêmen, governo alauita na Síria, governo xiita no Iraque e o Hizbolá que está no co-governo no Líbano. Cabe ressaltar que essa estratégia iraniana, é uma das formas que o país encontrou de fugir do cerco multidimensional imposto a Teerã pelos EUA desde a derrubada do Shah Mohammad Reza Pahlavi (cuja dinastia, iniciada por seu pai em 1925, foi uma invenção britânica para assegurar os benefício da Anglo Persian Oil Company). Essa retomada do governo iraniano por uma política externa independente de pressões externas, com tendência de projetar poder para além das áreas que lhe circundam estão no centro do programa nuclear do país, o apoio à Bashar Al-assad na Síria e ao Hezbollah no Líbano, o que lhe pôs em rota de colisão com os interesses dos EUA, de Israel e da Arábia Saudita ao longo dos anos. Sendo assim, a ampliação de sua participação externa rivaliza com outras potências do médio-oriente como a Turquia, mas sobretudo com os sauditas. Daí que o Irã desenvolve uma estratégia de tipo “eixo de resistência”, e de forma heterodoxa apoia também o Hamas (partido islamita palestino que controla Gaza). Como já dissemos antes, ao apoiar um partido sunita, negar-se a reconhecer a existência do Estado de Israel e ter posições públicas incondicionais pró-Palestina, o Irã joga suas cartas na região com desenvoltura. Mesmo porque o Hamas hoje conta principalmente com a aliança com o Hezbollah (partido islamita xiita libanês e responsável pela derrota e expulsão do exército invasor de Israel do território do Líbano). Reforça-se a ideia de que esse conflito político e ideológico entre  Arábia Saudita e Irã é chamada de “guerra fria do mundo islâmico”.

Já o envolvimento da Arábia Saudita deve ser entendido no contexto de uma transformação na política externa saudita que vem ocorrendo desde a transição política, quando o rei Salman bin Abdulaziz Al Saud passou o poder para seu filho Mohammad bin Salman (MBS). No começo da guerra civil, MBS era ministro da defesa e advogou por uma política externa mais agressiva para o país vizinho. No poder, MBS centralizou os controles por meio de uma campanha anti-corrupção e passou a ter mais controle sobre a política externa do país. Nesse contexto, MBS buscou influenciar a política interna de outros países da região como o Líbano (com a renúncia do primeiro ministro do Líbano, o sunita Saad Hariri, em 2017) e a ampliação do conflito com o Qatar (iniciado na chamada Primavera do Mundo Árabe no final de 2010), além do financiamento de forças pró-sauditas na guerra na Síria.

O conflito no Iêmen envolve, portanto, disputas pela liderança regional, mas não só. Por conta da importância internacional de Arábia Saudita e Irã, o envolvimento desses países não passa longe do interesse das grandes potências. Por exemplo, a Arábia Saudita é o maior produtor de petróleo no mundo, e junto com o Bahrein, hospedam bases navais dos EUA, como a 5a Frota do Bahrein[6]. Logo, se o refino saudita for abalado, a Arábia Saudita pode ter graves problemas para pagarem os EUA na compra de armamentos. Já o Irã, desde o século XVIII, a Pérsia (atual Irã) é área de disputa entre grandes potências como Rússia e Império Britânico. Hoje, EUA e Rússia disputam a região, mas o Irã por conta da agenda nacionalista e de influência regional ter sido reimposta no país após a Revolução Islâmica, em 1979, possui autonomia e independência de sua política externa.

O histórico de atrito do Irã com os seus vizinhos do Oriente Médio e o Ocidente alimenta a acusação de alguns jornais, e de parcela do governo dos EUA, de que o país teria apoiado os Houthis neste ataque, ou até o teriam realizado [7]. O governo do Irã apenas negou o ataque e colocou as forças de prontidão e disse estar pronto para o conflito. A primeira reação da Casa Branca foi afirmar que tem várias cartas na mesa e nenhuma está descartada. Cabe, no entanto, ressaltar que, sobretudo com a eleição de Trump, a política externa estadunidense tem ameaçado, cotidianamente, a soberania do Irã. Além de ter saído unilateralmente do acordo nuclear, o JCPOA, assinado pelo Governo Obama e com apoio de outras potências, os EUA realizaram outras atividades que contribuíram para a instabilidade na região, como o drone que foi derrubado no Estreito de Ormuz pela forças iranianas. Logo, não se pode descartar que o ataque Houthi seja utilizado para fortalecer ainda mais uma campanha que justifique uma possível intervenção ao Irã, ou ataques de resposta de modo a inviabilizar a produção de petróleo no Estado Persa.

A importância dos alvos atingidos neste ataque reside no fato de que a refinaria atingida responde sozinha por 6% da oferta global de petróleo e metade da produção saudita [8]. Como resultado, os mercados de compra e venda de petróleo (como a bolsa especulativa do Barril Brent) dispararam os preços, e as bolsas de valores encontram-se em tendência de queda, diante da instabilidade causada na região, podendo inclusive, desembocar em um conflito direto entre as forças de Riad e Teerã[9].

Trata-se de uma mudança de nível, como dizem os estrategistas dos EUA, um momento “game changer”, onde o nível e a letalidade do ataque para a infraestrutura representam uma notável capacidade de dano, a princípio dos Houthis, como uma resposta aos ataques aéreos e a matança da minoria zaidista/xiita no Iêmen. Infelizmente no Oriente Médio nada é tão simples. É importante que o Irã soberano não se veja atingido por um ataque financiado pelos EUA, além de que a estabilidade no Golfo Pérsico e na Península Arábica não interessa nem às duas potências que lá incidem (menos os Estados Unidos do que a Rússia) assim como as potências regionais (Israel, Turquia, Arábia Saudita e Irã) têm cada qual, sua própria agenda e não necessariamente “obedecem” a desígnios externos. É fato: a inteligência saudita e seus aliados diretos não abrem mão de “ligações perigosas” com o integrismo sunita e menos ainda da projeção de poder puro e simples, em especial no reinado de MBS. De sua parte o Irã, através da estatal petrolífera NIOC, não tem como recuar se for atacado, menos ainda se suas maiores refinarias – como Abadan, Isfahan, Bandar Abbas e a de gás, Khangiran – forem atacadas. O jogo seria empatado se a Rússia se comprometesse em retalhar qualquer ataque contra o Estado Xiita, tal como fez na defesa do governo Assad em agosto 2013. Tal compromisso russo-iraniano está longe de acontecer. Após o ataque contra a maior refinaria saudita, as cartas estão na mesa para todos os agentes da região ou potências que lá incidem.

 

Augusto Colório e Pedro Guedes são internacionalistas, Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais. Todos são membros do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (Economia Política & RI, ver https://www.facebook.com/capetacapitaleestado/).

 

1: DAVID CONNETT. Jornalista. Drone attacks on Saudi plant could hit global oil supplies. The Guardian. Londres, p. 1-1. set. 2019. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2019/sep/15/drone-attack-on-saudi-hits-global-supply&gt;. Acesso em: 15 set. 2019.

 

2: ANSAR ALLAH (Iêmem). Declaração Das Forças Armadas Do Iêmen. Ansar Allah. Sanaa, p. 1-1. set. 2019. Disponível em: <https://www.ansarollah.com/archives/277670&gt;. Acesso e tradução do árabe em: 15 set. 2019.

 

3: HUBBARD, Ben; KARASZ, Palko; REED, Stanley. Two Major Saudi Oil Installations Hit by Drone Strike, and U.S. Blames Iran. The New York Times. Nova Iorque, p. 1-1. set. 2019. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2019/09/14/world/middleeast/saudi-arabia-refineries-drone-attack.html&gt;. Acesso em: 15 set. 2019.

 

4 e 8: KATIE PRESCOTT. Saudi oil attacks: US blames Iran for drone strikes on two sites. Bbc. Londres, p. 1-1. set. 2019. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-middle-east-49705197&gt;. Acesso em: 15 set. 2019.

 

5:THE COUNTER EXTREMISM PROJECT (Org.). Al-Qaeda in the Arabian Peninsula (AQAP). The Counter Extremism Project. Londres, p. 1-61. set. 2019. Disponível em: <https://www.counterextremism.com/sites/default/files/threat_pdf/Al-Qaeda%20in%20the%20Arabian%20Peninsula%20%28AQAP%29-09092019.pdf&gt;. Acesso em: 15 set. 2019.

 

6: US. Us Navy. United Sates (Org.). Marhaba! Welcome to Naval Support Activity Bahrain. U.s. Naval Forces Central Command (centcom). Washington, p. 1-1. set. 2019. Disponível em: <https://www.cnic.navy.mil/regions/cnreurafcent/installations/nsa_bahrain.html&gt;. Acesso em: 15 set. 2019.

 

7:JOHNSON, Keith. How an Aerial Barrage Cut Saudi Oil Production in Half. Foreign Policy. Nova Iorque, p. 1-1. set. 2019. Disponível em: <https://foreignpolicy.com/2019/09/15/how-an-aerial-barrage-cut-saudi-oil-production-in-half-aramco-abqaiq-houthis-yemen/&gt;. Acesso em: 15 set. 2019.

 

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