Retomando o debate sobre o conceito de imperialismo – artigos

08 de setembro de 2019, Bruno Lima Rocha

Preciso começar esta nova série (creio eu) em função de algumas razões óbvias. A primeira e a mais sensível das razões porque os conceitos são reais, ou ao menos intentam interpelar, interpretar o real vivido como experiência concreta e não apenas o universo imaginário (que também forma o real vivido). Ou seja, isso existe, existe imperialismo e existem potências – no plural sim – imperialistas.

Algumas potências são também herdeiras do colonialismo, e talvez por isso o general Villas Bôas, no seu arroubo nacionalista circunstancial, tenha citado Ho Chi Mihn para atingir a imagem do presidente francês, o banqueiro Emmanuel Macron. Também existem impérios tardios que se alastra na esteira do Império matriz, tal é o caso dos EUA, o alvo da acusação de imperialismo de nove entre dez militantes das esquerdas (onde me incluo). Óbvio que do Império dos Gringos o mesmo general nada fala. Porque será?!

Outra razão prática do debate sobre o imperialismo é reconhecer as formas contemporâneas e sair da vala comum da caricatura. Imperialismo não é apenas uma invasão de fuzileiros navais gringos, mas também é isso, até hoje. O imperialismo é a forma superior do capitalismo, e nisso até o Lênin está correto – ao menos na análise – mas não só. A União Soviética foi imperialista no Afeganistão, seguindo a trajetória da disputa imperial anglo-russa nesta mesma região. A relação da China com o Vietnã recém-unificado e liberto da invasão dos EUA, isso após combater franceses e japoneses, foi horrorosa. Neste caso, Deng Xiao Ping disse a que veio em todas as áreas.

Mas, infelizmente, no século XXI, as capacidades de projeção imperialistas, ao menos no campo da economia, reproduzem formas de capitalismo. Hoje, EUA, China, Rússia e União Europeia (empatadas as últimas duas), Índia, Irã e Turquia em segundo plano, podem exercer pressões em alguma escala, gerando excedentes de poder de modo a violar soberanias e internalizar interesses externos para além de suas fronteiras e áreas de influência direta. Por seu peso relativo, podemos  incluir sem dúvida alguma a Israel e Arábia Saudita nesta lista também.

São sistemas políticos, formas de governo e regimes distintos, mas em termos de Economia Política Internacional, a soma da concertação estratégica de frações de classe dominante com elite dirigente reproduz uma dimensão imperialista. Observemos a corrida ao “eldorado africano”, uma das bases do renascimento de nosso continente co-irmão: China, França, Turquia e até o Brasil (em um belo exercício de cooperação, mas nunca sem críticas) disputam ou disputaram espaços importantes, além dos EUA de sempre.

Igualmente é válido debater o tema, pois quase sempre o modelo do século XIX, onde há um conjunto de alianças locais que se beneficia da pressão externa – ou da desnacionalização das riquezas e da perda de soberania popular – ainda existe e se reproduz. E, pasmem, os interesses são muitas vezes de motivação original ideológica – sentido de pertencimento – e caminham lado a lado com a mesquinharia típica de quem muito tem, quer mais ainda, e se julga com um mérito bem superior ao da maioria.

Cabe também observar que a complexidade do tema pede um debate à altura de sua ameaça, incluindo versões muito atuais, como os efeitos quase sempre nefastos da Cooperação Jurídica Internacional; da interpenetração de redes sociais e grupos de desinformação (o Brasil e a relação com neopentecostais e ultraliberais da escória do Partido Republicano exemplificam o problema) e também da loucura mal intencionada como da transloucada e perigosa tese da “conspiração globalista”.

Por fim, conspiração e presença externa assim como espionagem e guerras híbridas são assuntos tão evidentes e sérios que não podemos ser irresponsáveis ao confundir esta seriedade com absurdas e delirantes “teorias conspiratórias totalizantes sem evidências nem conceitos”. O debate urge e os prazos correm (no meu caso, literalmente). Este perfil e adjacências aceita (aceitam) sugestões e críticas.

A primeira etapa pós Guerra Fria até o auge posterior ao 11 de setembro de 2001

O mais evidente deste conceito é a presença militar, especificamente dos EUA, operando nove comandos combatentes permanentes. A projeção de excedentes de poder pela via da força não é exclusividade do Império Gringo, mas a dimensão e o volume em que isso ocorre sim. No período pós-Guerra Fria e pré 11 de setembro, o Pentágono inaugura uma etapa que vai atender pelo Guerra Total ao  Terror (GWOT da sigla em inglês). Há controvérsias se esta inicia após o primeiro atentado contra as Torres Gêmeas (em 26 de fevereiro de 1993) ou derivados da explosão simultânea das embaixadas estadunidenses em Nairóbi, capital do Quênia e também em Dar es Salaam, na Tanzânia (em 07 de agosto de 1998). A escala ganha por estas operações após o 11 de setembro é enorme, mas a doutrina já estava estabelecida antes. Ou seja, começa com o governo Bill Clinton (Partido Democrata) e segue no governo eleito através de fraude, com Bush Jr (Partido Republicano) derrotando a Al Gore.

A concepção de um inimigo multipresente, e de fato, antagônico aos “impérios infiéis” como Estados Unidos, Rússia (no Cáucaso) e China (no Turquestão Leste), indica a enorme capacidade da Superpotência (através também de seus aliados na Europa, através da OTAN) e das potências em ascensão, de projetar seus interesses militares além fronteiras. A agressividade das forças especiais dos EUA e da “Guerra ao Terror” –  com sequestros ilegais em países estrangeiros, cárcere não processado em Guantánamo e campos de concentração como em Abu Ghraib (Iraque) e Bagram (Afeganistão) – é a marca dos primeiros dez anos pós-11 de setembro.

Outra marca está nas chamadas revoluções coloridas dos antigos Estados soviéticos, como a Rosa na Geórgia (2003-2004), Laranja na Ucrânia (2004) e Tulipa no Quirguistão (2005).É importante ressaltar que ao mesmo tempo  que há  incidência através da manipulação cidadã via internet e meios de comunicação, também existe, sempre existe, maior ou menor demanda social legítima e processos reivindicativos realmente existentes. Como dizem os uruguaios “só se organiza o que existe”, mesmo que seja com a pior das intenções. O tema da Primavera Árabe como “revolução colorida”, afora o emprego da internet, não vejo como uma aplicação válida. No “movimento verde do Irã”, ou “revolução verde iraniana”, após a eleição de Mahmoud Ahmadinejad e derrota dos “moderados” Mir-Houssein Moussavi e Mehdi Karroubi, é evidente que houve tratativa de apoio ocidental, mas a disputa cultural entre a interpretação da Pérsia e a sofisticação das camadas urbanas iranianas é tema muito antigo.

 

Dei estes exemplos para verificarmos um esforço que modestamente faço para retirar os rótulos e o “debate de lacração” os quais as parcelas politizadas e mal formadas de nossa gente estão expostas e irmos além das denominações por conveniência.

Se a Guerra ao Terror e as “revoluções coloridas” inauguram o imperialismo estadunidense no pós-11 de setembro, a avalanche das redes sociais é a marca globalizada de manipulação da esfera pública de países inteiros. As evidências são escancaradas com o caso Edward Snowden em 2013, já passados cinco anos do estouro da “Farsa com nome de Crise OU da Fraude com nome de Bolha” imobiliária e seus derivativos mundo afora. A interconexão das consciências, o ataque da esfera pública, a criação de fantoches na sociedade civil que podem vir a se massificarem é a marca deste período, radicalizando o processo na subjunção das novas direitas às pautas marcadas pelas direitas ainda mais à  direita dos EUA. O processo que leva à eleição de Trump e sua repercussão globalizada refletem esta nossa afirmação.

Bruno Lima Rocha (blimarocha@gmail.com / t.me/estrategiaeanalise) é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política e professor nos cursos de relações internacionais, comunicação social e direito. É membro do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (https://www.facebook.com/capetacapitaleestado/)

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