O novo ministro de relações exteriores do Brasil e o país submisso – artigo de análise de RI

13 de janeiro de 2018, Augusto Colório, Marina Rossetto e Bruno Lima Rocha

O Brasil está em transe, tomando como referência o conceito do genial Glauber Rocha. Isto é fato. Infelizmente, o país vive um transe de mimetismo com um arcabouço de conceitos estapafúrdios, onde não há sequer uma “direita séria”, vivendo sob um jogo de espelhos retorcidos da pior faceta dos lunáticos dos EUA, as direitas mais à direita do Partido Republicano. Para desgraça da nação, a vitória eleitoral de Trump nos Estados Unidos veio ao encontro da “nova-velha” direita brasileira, em suas vertentes mais absurdas, justo as que se popularizaram a partir de 2014 e cuja parcela mais autoritária e “iconoclasta” encarna no “governo” de Jair Bolsonaro.

Estamos diante do inusitado, da mescla do pior com o pior, atingindo o cerne de instituições que todos pensávamos estarem meio que imunes a tanta sandice. Dentre estas, o Ministério das Relações Exteriores (MRE), conhecido como o Itamaraty, um lócus de poder e saber de Estado que sempre fora comparado ao “Foreign Office” do Brasil. Não que o Ministério e os respectivos diplomatas sejam isentos de críticas, longe disso. Menos ainda cair em uma fala vazia de “direção técnica” ao invés da “direção política” do órgão. Não há instituição sem disputa política, sem linhas antagônicas (por vezes muito antagônicas) e tampouco há virtude alguma em instituições insulares, isoladas da sociedade e cuja meta seria atender o interesse de sua cúpula dirigente. Mesmo com todas as considerações acima, há que se reconhecer que a atual situação passa de qualquer limite do previsível. Esta “ruptura” é por direita, bem à direita, e muito, mas muito subordinada ao imperialismo dos EUA sob seu governo de turno. Vejamos.

O discurso de posse do novo ministro de relações exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, parece confirmar o que as análises mais sensatas de relações internacionais vinham prevendo. Seguindo a política externa do pós-golpe, o Brasil deve romper ainda mais com o histórico de sua política externa – reconhecida mundialmente por pautar suas ações por alguns princípios dos quais quase nunca abre mão, como os de não intervenção, de autodeterminação dos povos e de solução pacífica de controvérsias.

A política externa brasileira proposta por Araújo vai em direção ao alinhamento ainda maior aos interesses estadunidenses (diríamos, alinhando-se especificamente ao governo Trump) para a política internacional, como forma de obter “desenvolvimento” deixando de lado as iniciativas de inserção autônomas para um mundo multipolar, na qual o Brasil tem uma margem de barganha muito maior. Se durante a campanha, Jair Bolsonaro prometia “desideologizar” o Itamaraty, a posse do ministro Ernesto Araújo acentuou uma presença ideológica que pelo visto era muito marginal dentro do órgão. O discurso da “desideologização” (muito em voga nos ‘comentaristas de economia”, ou seja, dos papagaios do capital financeiro) sempre foi uma farsa e agora parece uma ópera bufa, mescla de filmes B do gênero pastelão com os roteiros mais revoltantes do genial Pier Paolo Pasolini,

Se o ato de posse é o anúncio dos tempos vindouros, logo há muito a temer. O discurso conteve de tudo. Grego, latim, citações de Clarice Lispector, Renato Russo, Raul Seixas, Fernando Pessoa, Dom Quixote. No entanto, apesar do folclorismo demonstrado pelo diplomata (e como nada nos escapa, o não citado Joaquim Câmara Cascudo estava presente nas entrelinhas), existem pontos relevantes que devem pautar a radical transformação da política externa brasileira. Apesar do discurso servir mais como uma exaltação da “nova fase” do Brasil, bem como da chegada de “Deus” ao Palácio do Planalto, e pouco sobre estratégia de política externa, pode se perceber o alinhamento automático do Brasil aos interesses norte-americanos. Mesmo que travestidos de uma retórica antiglobalista, a fala do novo ministro deixa explícito que os mesmos objetivos da política externa do governo Trump serão almejados pelo Brasil, a partir de agora. É por isso que Araújo intensifica o discurso contra a Venezuela, exalta Israel, e aplaude governos conservadores que flertam com o fascismo como da Itália (Nova Itália na fala do ministro), Hungria (campeã da xenofobia) e Polônia (novo bastião da OTAN), de maneira fática disse: “os aliados dos Estados Unidos serão nossos aliados, e os seus inimigos serão os nossos inimigos”.

O novo ministro atacou de todas as formas o fenômeno que ele chama de globalista. Inspirado no astrólogo Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo é adepto da teoria conspiratória que interpreta a relativa perda da soberania dos estados, como consequência da globalização, como um grande plano global guiado por forças internacionais que visam dominar o mundo. Para que essas forças sejam superadas, Araújo propõe o fortalecimento de laços bilaterais e a valorização da amizade com países que “admiramos” como os EUA e Israel. Araújo parece também, incentivar a lógica do discurso do inimigo externo, da soberania sob um possível ataque, da necessidade de protegermos a pátria a todo custo. Pode-se pensar nessa estratégia como forma de legitimar os futuros ataques aos direitos sociais e civis que já foram apresentados nos primeiros dias de governo – exatamente como o grande irmão do norte faz.

Outra promessa do novo ministro foi a de “libertar o Itamaraty de ideologias perversas”. Logo, supõe-se que o fará com a ascensão de “ideologias virtuosas”, como quais? O ministro não citou diretamente, mas nas entrelinhas houve referência ao paradigma de Ratzel para o “destino dos povos”. Muito preocupante para quem entende os termos da geopolítica. Com isso Araújo promete que o Itamaraty vai buscar o interesse do povo brasileiro por meio de decisões “técnicas”. No entanto, não há como proteger o interesse nacional omitindo assuntos extremamente importantes para a soberania nacional. Como justificar a proteção do setor estratégico vendendo uma das maiores empresas nacionais e com alto grau de tecnologia que é a Embraer? Além disso, o que justifica o alinhamento a Israel e a mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, colocando em risco a exportação de carne Halal – considerado o Brasil maior produtor e exportador mundial de carne bovina segundo maior de frangos e líder nas vendas de carne Halal – para os países árabes? Ou, como promete proteger o interesse do povo brasileiro ao não denunciar a venda do Pré-Sal para potências estrangeiras e o sucateamento da Petrobras?

Araújo afirmou que a xenofobia não é um problema no mundo e que o problema real é “odiar o próprio lar”. A posição, que reduz o tamanho da crise migratória mundial, já foi endossada pelo novo presidente que confirmou ao Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que o Brasil ia sair do pacto migratório da ONU.[1] O acordo que foi assinado por mais de 152 países é mais um exemplo do papel de retração que o Brasil deve ter no cenário internacional. No entanto, qual é a justificativa para perdermos capital político nos fóruns multilaterais? Qual é a legitimidade que o Governo Bolsonaro possuirá internacionalmente quando for necessário aprovar algum tipo de medida internacional que seja de interesse nacional ou que necessite apoio de outros países?

O Governo Bolsonaro ao exaltar o Governo Trump esquece-se da diferença de poder existente entre os dois países no Sistema Internacional. Se por um lado Trump está sob o comando do país com a maior economia do mundo, com o maior arsenal nuclear do planeta e com mais de 800 bases distribuídas mundialmente, o Governo Bolsonaro comanda um país com projeção internacional extremamente limitada e que mesmo chegando a ser a oitava maior economia do mundo, dificilmente conseguiu garantir a sua soberania. Enquanto outros países são obrigados a lidar com o Governo Trump, o Brasil pode estar entrando em uma fase de isolamento internacional, tornando-se mais um país marginalizado da política mundial. Além disso, cabe ressaltar que os recentes acontecimentos na política interna dos Estados Unidos podem significar uma ameaça real de impeachment ao Governo Trump, o que poderia ter consequências graves para o Brasil por conta do alinhamento total do novo governo.[2]

Por fim, o discurso do novo ministro interrompe o projeto de uma política externa brasileira autônoma, que se inicia com o governo Jango/Jânio, perpassa a ditadura militar no governo Geisel, aparece no governo de Itamar Franco e é retomado pelos Governos de Lula e Dilma. Como já vinha se encaminhando no pós-golpe, pode se esperar um alinhamento total do Brasil ao “irmão do norte”, como fizeram Dutra, Café Filho, Castello Branco e Collor. Além disso, coloca o Brasil em um local completamente isolado nas questões multilaterais internacionais e enfraquece qualquer tipo de política externa autônoma como o frustrado BRICS.

Estamos diante de uma situação inusitada. O Brasil se porta como se fosse literalmente uma república bananeira, cumprindo a sina do Bananistão, o sonho macabro das elites brasileiras de transformarem o país novamente em um fazendão, uma plantation pós-colonial, governada de fato pelo baronato financeiro em condomínio com o que há de pior na nossa sociedade. Se há algo que não pode ser contestado é uma “incoerência” do “governo” Bolsonaro. Seu chanceler e aquilo que se anuncia para a política externa e as relações exteriores estão à altura do presidente eleito e sua trupe. Reiteramos: isso não é nenhum elogio.

Augusto Colório é mestrando e graduado em relações internacionais; Marina Rossetto é graduada em relações internacionais; Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais e de jornalismo. Quem redigiu este texto forma parte do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (https://capetacapitaleestado.wordpress.com)

 

[1]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2019/01/02/bolsonaro-confirma-aos-eua-que-brasil-saira-do-pacto-migratorio-da-onu.htm

[2]Mitt Romney, um dos líderes do Partido Republicano e ex-candidato à presidência dos EUA soltou uma carta na imprensa fazendo duras críticas ao Presidente Trump.

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