Análise de conjuntura da semana do ato de 13 de março até a indicação de Lula para a Casa Civil: inaugura-se um novo momento da crise brasileira

Bruno Lima Rocha  

Introdução

Na tarde da 4ª dia 16 de março o movimento moro-lula01mais arriscado do período de crise do lulismo e do pacto de classes foi tomado. Luiz Inácio, o ex-presidente Lula, aceitou o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Seria uma notícia de fortalecimento do segundo governo Dilma, caso não parecesse também uma manobra de “desespero”. O capital político do ex-sindicalista é do tamanho do partido de governo inteiro em conjunto. Caso fosse preso por alguma motivação da etapa do processo judicial – dos processos judiciais, o que correm em vara federal em Curitiba, Paraná e a denúncia do Ministério Público de São Paulo, transferido para a mesma alçada federal já citada. Luiz Inácio pode operar como a base de uma nova base de governabilidade. Em último caso, precisa ajudar a contar 171 votos + 1 no plenário da Câmara e assim frear, sob quaisquer condições, o processo do impeachment.

Além disso, pode implicar uma mensagem de calma para os agentes econômicos e também uma animação para a militância que ainda crê, sempre na base do pensamento mágico característico dos partidos históricos que mudaram suas posições estratégicas. O presidente da CUT nacional, Vagner Freitas, central sindical que compõe a Frente Brasil Popular, declarou que “governo vai mudar radicalmente e dar guinada à esquerda!”. Pura fantasia de dirigente profissional. A partir de agora, o reboquismo anda lado a lado com o confronto com a nova direita neoliberal que levou milhões às ruas no domingo dia 13 de março, sempre com amplo e difuso apoio dos grandes veículos de comunicação. Com Lula, o totem está no Planalto. Arriscam tudo, e necessariamente tem de reagir ao vazamento de gravações das conversas do ex-presidente Lula com correligionários e com a própria presidente da república. Vejamos algumas relações causais dos dias que antecederam esta indicação de Lula para Casa Civil e também ao vazamento – no meu entendimento inapropriado e possivelmente ilegal.

Idas e vindas do governismo de centro ex-esquerda e a base de apoio dos políticos profissionais que mudam de lado com os ventos dos processos

Estamos diante de um momento crítico, onde as forças populares estão realmente sem uma base sólida por onde arrancar, e ainda pendentes do canto da sereia do eleitoralismo – por dentro e por esquerda do governo -; enquanto o governo Dilma, em sua segunda edição, é uma soma estranha de um grupo de confiança com aspirações próprias dentro do partido – como Miguel Rossetto e Jaques Wagner (no gabinete pessoal da Presidência) -, além de uma subordinação à base oligárquica do governo, comandada por Renan Calheiros e Sérgio Cabral Filho, ambos à frente do PMDB que se impõe em escala nacional. Na convenção do PMDB, realizada no sábado dia 12 de março, a legenda se isola do próprio governo e assume a fratura diante do lançamento de Michel Temer como pré-candidato a presidente tampão do Brasil.
Uma possibilidade de reação da base lulista com o próprio à frente é explicitar a punição seletiva da Polícia Federal e do Ministério Público, que investiga tudo em torno de Lula e Dilma (no meu entender, investigações corretas) e nada de Fernando Henrique Cardoso e cia, onde abundam evidências e, no mínimo, situações concretas para notícias-crime. Mesmo apanhando todos os dias, o ex-sindicalista que segundo o próprio nunca fora de esquerda, ainda é a opção de projeto de poder do partido onde ele é o único ator individual com poder de veto e imposição de vontades, ao arrepio da organicidade e à revelia da democracia interna. Com a indicação para Casa Civil e algumas possibilidades de giro heterodoxo na política econômica, Lula unifica o partido, alimenta a motivação e fantasia de militantes que ainda esperam o tal giro à esquerda, e anunciam a solidez na interna do partido de governo.

Quando o partido de governo se assemelha com os piores adversários do passado

O momento é grave, sim, mas é necessário afirmar os antecedentes dos últimos 13, 14 anos, para compreender porque chegamos nesta etapa. O Poder Executivo não é tudo e a capacidade de garantir a hegemonia na política profissional escorre pelas mãos. Venho afirmando o óbvio em distintas dimensões. Creio que é consenso até entre a esquerda restante da base do governo, que o país se inclinou em demasiado para uma expansão do consumo, a acomodação de forças, as garantias das margens de lucro de empresas permissionárias e concessionárias e, para o jogo duro no Sistema Internacional, primarizou a economia brasileira.

Internamente, fez de tudo para deixar intacto cada setor tanto do inimigo de classe (agora, aliado de classe) e aliado político circunstancial.  Nada fazer em política é o pior a ser feito. Vejamos o que o pacto lulista não fez e agora cobra o preço amargo:

Quem mandou engavetar a CPI do Banestado e a Operação da Federal que deu base para as investigações?

Quem mandou melar as operações Chacal e Satiagraha?

Quem mandou melar a investigação da Lista de Furnas?

Quem mandou escantearem o delegado Castilho, titular da falecida Operação Macuco e mandarem o perito da Federal que apurou as contas do Banco Araucária em NYC para a geladeira?

Quem mandou melar a Operação Satiagraha e querer morder também no esquema de Dantas, o primeiro da lista do tucanato?!
Quem mandou manter o esquema de mídia dos governos anteriores, jorrando recursos para dentro do PIG 1?

Quem mandou fazerem coro com a direita? Agora leva de novo. A condução coercitiva de Lula e a denúncia do MP de São Paulo ocorridas não são apenas por perseguição ou punição seletiva, mas é por querer ser igualzinho aos antigos inimigos de classe.

Apesar de não ter feito nada do que listei acima, o partido de governo se vê como alvo principal da Operação Lava Jato e outras denúncias semelhantes. Há coerência em ter ao ex-presidente como alvo de investigação, mas não como alvo único, ou quase único ou mesmo como prioritário.

Se o esquema de doação de campanha for realmente criminoso, como parece ser, ficam algumas dúvidas:

Como vão criminalizar as doações eleitorais de 2014 se o cartel das empreiteiras doou para ambas as chapas? Dúvidas como esta e escândalos afins, tais como o suposto apartamento em Paris de 11 milhões de euros, forneceriam bases sem fim para notícias-crime. Também estoura em 2016 o que todos já sabíamos, com o pagamento de pensão para seu filho com Mírian Dutra, ex jornalista da Globo em Brasília e enviada pela emissora para Barcelona.

O mimetismo no comportamento político vem custando caro, bem caro.

Debatendo algumas razões para a cova brasileira

A cova brasileira se dá por uma série de fatores, mas esta é muito mais rasa do que os coveiros midiáticos e “especialistas do mercado financeiro” gostariam que fosse. A eterna maldição da relação dívida-PIB aumenta na medida em que a taxa da Selic não baixa – ficou em 14,25% de novo, através do quase auto-governo do Copom. Enquanto isso, os coveiros exigem o aumento permanente da Selic e a liquidação de tudo. Tentam fazer recordar a recessão de 1990 e 1992, mas se equivocam, pois neste período havia hiperinflação, e em 2009, o Brasil foi defendido por medidas anticíclicas. O problema não é a recessão hiperinflacionária, que não vai voltar, mas a recessão com inflação com algum grau de controle, como foi o período FHC, em especial a partir da fraude da reeleição de 1998, com o estatuto da reeleição durante o mandato de Fernando Henrique, através de compra de voto no Congresso. Em 1999, quando chamaram a raposa para tomar conta do galinheiro, com Armínio Fraga à frente do Banco Central, o real (R$) foi desvalorizado em três pontos perante o dólar, e em 2002, atingiu a relação 4 por 1 – a mesma que temos agora.

A pregação do austericídio dentro e fora do segundo governo Dilma Rousseff, a fala permanente dos coveiros do caos e o ambiente político forçosamente complicado está levando ao governo atual a fazer as piores escolhas, todo o tempo. A inflação que tivemos em 2015 através de preços administrados é algo próximo da traição à confiança do povo, confiança esta cada vez menor e, seguidamente, anunciada como a última bandeira a ser atirada ao piso. O caminho da próxima trairagem está na “reforma” da Previdência, a mesma medida parcial que Lula tomou em agosto de 2003 e culmina com o racha da então esquerda de seu partido, dando a partida definitiva na criação do PSOL.

Os coveiros estão babando e vendo a possibilidade de atingirem seu alvo estratégico: as garantias e direitos coletivos existentes na Constituição de 1988, mas, que de fato, o Estado brasileiro não atende e, no que depender da direita política que não ganhou na urna, vai atender cada vez menos. No caso da direita que saiu vitoriosa, é possível que Dilma rasgue todo o seu programa e promessas de campanha, com o intuito de sobreviver politicamente e terminar o mandato.

Dilma, e agora Lula na Casa Civil, comprovam o dito: Quando se governa com a direita é a direita quem governa.

A elite viralata e seus seguidores massificados pela agenda midiática

Se o lulismo foi o consenso conservador com distribuição de renda mínima, agora é o efeito inverso. O governismo catalisa a histeria anti-popular da nova direita. A gritaria na rua tem efeito limitado. Coxinha não derruba governo, os oligarcas do PMDB talvez. O alvo estratégico da oposição é rasgar os direitos de 4ª geração e todas as garantias que são conquistas constitucionais. Para isso, o moralismo lacerdista opera muito bem. Porém, depois do último domingo, 13 de março, o bloco neo varguista está na rua, defendendo – e com alguma razão -, o mal menor diante da arriscada aventura dos udenistas pós modernos. Para garantir 2018, Dilma – e Lula – têm de sobreviver e até lá salvem-se quem puder.

O problema está no processo de negociação para esta sobrevivência do governo. Nos próximos meses, podem ir para o ralo uma parte considerável de nossos direitos. Definitivamente, este governo não é de esquerda e Lula tampouco é o “maior suspeito de corrupção da história”. Fernando Henrique Cardoso é o espelho retorcido do ex-sindicalista, mas não deixou na reta, ou foi brindado pelo PT pela bandeira da paz a partir de 2003, sem direito a reciprocidade.

Não há como escapar desta caracterização. Impeachment é manobra da direita que perdeu, mas não há como defender este governo e, menos ainda, o sindicalista que nunca foi de esquerda, segundo o próprio. Tem de ser dito, em alto e bom som: Lula, o PT e seus aliados são indefensáveis por um ponto de vista militante e por esquerda. O ex presidente é um líder político que faz acordo com o capital nacional e troca a luta do povo pelo pleno emprego. No caminho, ele e sua trupe mudam de forma de vida e terminam mimetizando o comportamento do inimigo de classe e do adversário político. Lula só pode ser reivindicado pelo que representou nas décadas de 80 e 70. Agora, Luiz Inácio da Silva é uma pilhéria de si mesmo. É preciso barrar o avanço da direita, mas esse ícone do novo peleguismo – agora de volta ao Planalto – deve ficar bem longe da esquerda restante.

Por outro lado, a maldição da elite que se odeia segue assombrando. O viralatismo está passando dos limites da menor racionalidade. Já conheci histórias de fracasso, mas a elite brasileira não tem a menor vocação para projetar poder. Aqui, não dá nem para ser pelego e bem intencionado. A meta é liquidar direitos, abocanhar o Poder Executivo e cumprir a agenda da Embaixada dos EUA. Por isso e muito mais, não dá para ficar no reboquismo do pacto de classes do lulismo. Menos ainda aderir à direita que perdeu na urna.

O que o país vive hoje é uma soma de sentimento anti-popular, evidências de comportamento corrupto pela base do governo retroalimentando manipulação midiática, autonomia e ambição de poder do Ministério Público e seus jovens procuradores. Esta ópera bufa do lulismo em decadência é também fruto da utopia pelego stalinista de buscar uma burguesia nacional a qual servir. Síndrome de Estocolmo e abandono da luta popular.

Vale lembrar, Vargas se matou para não resistir, Jango foi “responsável” e se mandou, tal qual o PCB que não tinha um dispositivo antigolpe. Agora é tudo de novo, mas em 4a geração. Não adianta acreditar em mágica. O populismo sempre rói a corda, tal qual os demais segmentos do pacto de classes. Trata-se de uma agenda dupla. Por um lado e urgentemente, defender os direitos e frear a agenda da embaixada dos EUA impulsionada pelos vira latas coxinhas.

O papel da Globo, a conspiração e a solução do vampiro

Na rádio CBN, em rede nacional Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg pregavam abertamente (na sexta feira dia 11 de março) o impeachment ao invés de um parlamentarismo capenga. Julgam ser melhor um governo Temer, pois este faria “o dever de casa” para depois se retirar da política. O comparavam a Itamar Franco afirmando que o vice fará as “reformas” que o Brasil precisa. É (era e continua sendo) o golpe branco sendo debatido em alto e bom tom, sem pudor. Querem vender tudo e rasgar os direitos constitucionais, abertamente, sem medir as palavras, alegando a necessidade de “adequar o Brasil aos novos tempos da economia global”. A Globo não está brincando e não deixa de ser bem feito para o lulismo. Reboquismo e pacto de classes dão nisso, pois até ministro das Comunicações a Globo já teve durante o governo de Lula. É como sempre afirmo: Não adianta sair com o vampiro e depois reclamar que ele quer o seu sangue.

A roupagem do frenesi reacionário é distinta das outras épocas. A liderança da direita ideológica está mobilizando a sua base através de um happening midiático. É uma orgia de auto-elogio. A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) ganha nova roupagem na onda das “revoluções” laranjas; não dá para se assustar, e sim passar o recibo após mais de uma década de acordos espúrios e abandono de posições minimamente defensáveis pela ex-esquerda no poder. Não há o que fazer, pois o agente econômico brasileiro não tem vocação de poder externo; é a crise do modelo de aliança capital-trabalho.

Repito. Não se trata de defender este governo composto por traidores de classe, mas sim – e primeiro – combater o avanço das teses neoliberais e a agenda do capital transnacional. Não há contradição entre combater a direita que perdeu na urna e jamais se aliar aos aliados dos genocidas e cartéis brasileiros. É necessário enfrentar o golpe da Globo e da Embaixada dos EUA; deslegitimar a intermediação dos governistas e pelegos que fizeram acordo com o andar de cima; construir uma política debaixo para cima, com o protagonismo de quem milita e não de quem usurpa o esforço coletivo da maioria; criar uma plataforma de reivindicações e construção permanente para garantir que nosso poder não seja moeda de troca em negociações impublicáveis. Só a luta popular faz valer e ampliar os direitos coletivos. O reboquismo é o caminho mais rápido para o abismo e a derrota ideológica. Em todos os sentidos: 54 e 64, embora reconheça que estamos diante de um momento como o de 1954.

 

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