A política como ela é em Porto Alegre e Região: conversando com Hélio Sassen Paz

22 de janeiro de 2016, Bruno Lima Rocha

O professor e colega Hélio Sassen Paz é um dos poucos especialistas em redes que consegue fazer com maestria o vínculo com a política realmente existente, incluindo a influência de dois fenômenos típicos do Brasil recente: a presença de políticos com bases neopentecostais e a relação de futebol e política representativa. Profundo conhecedor das clivagens eleitorais em Porto Alegre e Região Metropolitana, durante uma conversa informal que tivemos, ele transformou comentários em uma análise acurada do que está por vir no pleito municipal de 2016. Deixo explícito que respeito todos os comentários do colega e que não coaduno completamente com suas opções, mas sim com sua capacidade analítica e identificação das opções de voto. O texto a seguir são as palavras literais de Hélio, com exceção da retirada dos nomes próprios de políticos profissionais supracitados, retirada esta por razões legais:

“Oi, faço aqui um breve comentário, a partir de duas postagens tuas: Considero que dois dos vereadores mais conhecidos da bancada petista na capital rio-grandense destoam da maioria da bancada do PT por serem oportunistas, demagogos e por agirem em causa própria. Eles inserem-se em comunidades carentes com a mesma facilidade com a qual atuam como vaselinas e falsos ponderadores em meio à bancada do concreto.

Já participei de algumas votações na Câmara dos Vereadores. Até as comunidades chegam lá sem saber o que esperar deles. O problema é que outros vereadores de esquerda (ou de uma esquerda verdadeira) não se dedicam a ir até essas comunidades em momento oportuno.

Assim, dentro do mesmo partido, não dá pra comparar um deles – muito conhecido e citado por ti (obs: por mim, Bruno) recentemente – disparado o pior de todos ou o outro bastante conhecido como ex-xerife da capital – este eu ainda não identifiquei claramente se é por ego, pela ambição de concorrer à Prefeitura ou por demagogia pura e simples – com vereadores com bandeiras programáticas e menos visibilidade.

Algo que sempre foi bastante claro pra mim em POA, Bruno, é que vereadores do PT ajudaram a abrir espaço aos neopentecostais quando estes passaram a oferecer subsídios, cursos e oficinas nas vilas em períodos de maior desemprego pelo fato de eles terem aderido ao establishment ao invés de terem se mantido na luta pelas comunidades que os elegeram ao longo dos últimos mandatos do PT.

Ele e ela ainda se elegem (obs: comentando a respeito de um vereador e uma vereadora com nicho dentro de algumas pautas e especificamente em uma grande área urbana entre a zona norte e a zona leste da capital) porque são honestos e possuem plataformas nítidas de defesa e empoderamemto de certos nichos. No entanto, com menos votos do que antigamente e dividindo os votos ao invés de eleger a ambos. Essa concorrência inesperada é ruim para o partido, que não pensa estrategicamente no micro (município e estado).

Dentro desta mesma lógica, seria interessante analisar as estratégias de escolha de candidatos de todos os partidos à Câmara de Vereadores.

O voto no PSOL me parece voto do movimento estudantil e de um nicho do funcionalismo público.

E o trabalho de formiguinha que gerou imensos formigueiros neopentecostais fez crescer o PTB que se transformou em PSD.

O PTB hoje aliado local do PT-RS (a partir de Canoas, vide a aliança de governabilidade nesta importante prefeitura) parece ser muito pouco composto pela antiga matriz neopentecostal que o formou a partir da fusão do discurso radialista popular fundador da nova vertente desta legenda (o deputado estadual mais longevo da linhagem da RBS, que parece ter cansado de atuar, após não ter sido lembrado nem para a prefeitura, nem para o Governo do Estado). Portanto, a entrada que ocasionou o domínio neopentecostal dentro do antigo PTB foi uma oportunidade dessas pseudo-religiões pegarem carona no discurso deste radialista através do microfone da Farroupilha.

E boa parte deles se sofisticou e passou a atuar mais à direita, enquanto os militantes mais antigos seguem uma linha do trabalhismo que encontrou espaço sem identificar-se mais com as alianças junto ao PMDB e ao PDT gaúcho, que também assumiram uma postura mais à direita. Alia-se hora ao PT (o PDT,  embora na capital tenha um caminho próprio), mas não querem ser identificados com escândalos como Mensalão, Lava-Jato, etc.

No entanto, o PSD não pode ser considerado eminentemente neopentecostal na Grande POA: ele também conquistou ex-futebolistas para seus quadros (como o presidente estadual; outro ex-jogador de forte atuação no esporte comunitário; e o mais recente e campeão de escândalos, um inocente útil).

Acho que esse quadro – o das clivagens eleitorais e a presença de parlamentares municipais – é mais importante na formação da Câmara de Vereadores do que para a Prefeitura. Porém, essa militância trabalha e muito.

E deverá influenciar tanto a Prefeitura como também o Piratini.”

 

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