O Rio de janeiro como ele é: diálogos reais do morro com o asfalto

12 de janeiro de 2016, Bruno Lima Rocha

No final do ano vim ao Rio para visitar familiares e aproveitei para rever amigos de distintos contextos. Conversando com um destes amigos – neste caso – que, ao contrário de mim, não vem da classe média, é afrodescendente e morador de comunidade ocupada pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), me deparei com tudo o que já sabia, mas cuja prosa reforça a evidência. No título, o do asfalto sou eu e o do morro, por motivos óbvios, fica discreto.  Também pelas mesmas razões evidentes, vou ocultar o nome da comunidade e dos personagens reais envolvidos.

Parte 1 – O Luizinho

Amigo: Pô, já te comentei do Luizinho? O moleque era atleta nato, apareceu lá no projeto e embalou nas atividades. Passava aperto em casa, os pais não estavam com emprego fixo e acabou entrando para o movimento. Aí pintou uma dona aí que amadrinhou o menino, ele ganhou cesta básica e ajuda de custo. Era toda uma carreira pela frente no esporte, mas infelizmente voltou para o tráfico.

Eu: Tu ainda vê ele por lá?

Amigo: Via uma época (antes da UPP e antes da troca de comando), ele ali guardando a viela com um fuzil que era quase do tamanho dele. Mas aí teve guerra lá em cima, e trocaram a facção. Era CV (Comando Vermelho) e entrou a ADA (Amigos dos Amigos), que tá dominando até agora (com UPP). Quando os ADA tomaram o morro ele foi para a comunidade X (ocultei de propósito) e parece que está  vivo ainda.

Parte 2 – O filho do vizinho

Amigo: Tem um vizinho lá em cima que o filho já caiu duas vezes. O moleque levava jeito pros estudos, mas infelizmente caiu na vida do crime. Isso foi há uns três anos. Até que durou muito na ativa, e foi preso. A conta era alta, assinou com corrupção de menores, porte de arma, associação para o crime e tráfico. De bobeira eram 8 anos com bom comportamento. Mas saiu e fez merda de novo.

Eu: E como ele saiu?

Amigo: Acontece que o pai era da portaria de um prédio cheio de juiz e promotor. Ele nem falou nada, mas os colegas do serviço foram comentando, até que caiu no ouvido do síndico, que falou com o sub-síndico que era juiz e pediram o nome completo, o número do processo e a penitenciária onde ele estava baixado. Aí rapidinho adiantaram o lado dele e passou na frente de gente com processo bem mais leve e acabou ganhando soltura.

Eu: Mas tu disse que ele fez merda de novo?

Parte 3: O filho do vizinho e o plantão que não arrega prá farmácia

Amigo: Sim, saiu e voltou prá comunidade. Não devia, pois logo já estava formando com a facção novamente. Deu tiro nos PMs da UPP, jogou granada em cima deles e já disseram pro vizinho. “Manda teu moleque vazar daqui porque a ordem do batalhão não é mais prender ele não, é passar (matar) mesmo!”

Eu: E aí, fizeram o que?

Amigo: Mandaram para a casa dos avós em São Gonçalo, em uma área onde ele quase não conhece ninguém. Se o moleque ficar por lá, o batalhão da UPP da comunidade não aciona os colegas para pegar ele. Mas, se der a cara no morro novamente, aí vão passar mesmo (matar).

Eu: Mas fulano, se tem UPP, como é que continua a facção?

Amigo: UPP é só para o asfalto ver. O que não tem mais é traficante portando arma de modo ostensivo, mas, o tráfico continua igualzinho.

Eu: Então tem acordo com a UPP?

Amigo: Tem e não tem, ao menos lá na comunidade depende do plantão. Tem um plantão que é arregrado do tráfico, não vê nada e não faz nada.  Mas também tem um plantão que não leva bola e senta o dedo o tempo todo. Se depender desses dois (corda e caçamba), vai acabar o movimento lá. São esses aí que disseram pro pai do moleque (que é trabalhador e por isso o respeitam) que vão matar geral, o moleque incluindo.

 

Rio de Janeiro, RJ, em algum lugar da zona sul carioca, dezembro de 2015; e fora os nomes ocultados, É TUDO VERDADE

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