Questão agrária e mineração na Amazônia – 2

04 de Janeiro de 2016, Fabiano Bringel

 

Nas décadas de 1960 e 1970, as estradas federais foram abertas com maior intensidade. Com isso, acelera-se o cercamento das terras e uma redefinição gradativa da rede urbana, tornando-a cada vez mais complexa com o surgimento de novas cidades e municípios. As rodovias conectaram o sul e sudeste do Pará às outras regiões do país, inserido-os dentro de um contexto geopolítico de integração ao capitalismo financeiro internacional e nacional.

 

Com isso a Amazônia vê grandes massas de trabalhadores penetrarem em seu espaço. Subjacentemente, fazendeiros e empresários acompanham o movimento destes trabalhadores atraídos pelas benesses governamentais dos subsídios oferecidos pela SUDAM e pelo BASA. A chegada do Banco Econômico, do Bradesco, do Bamerindus, da CVRD e da família Lunardelli são exemplos desse processo.

 

Neste cenário vemos grandes corporações, representantes das formas capitalistas de produção, tornarem-se grandes latifundiárias, empregando trabalho escravo em suas fazendas e monoculturizando a produção. É o caso da Volkswagen do Brasil, que apregoa em várias partes do mundo o uso de modernas técnicas de produção e relações de trabalho especificamente capitalistas e na Amazônia faz exatamente o contrário, muito compreensivelmente sem publicidade nenhuma. É o caso da Vale que sob a batuta dos governos militares, sempre com discursos de um estado nacionalista pactua com a United States Steel – USS, da família Rockfeller, para explorar minério na Serra de Carajás e que irá dar origem ao PFC – Projeto Ferro Carajás.

 

Outro exemplo interessante da presença do capital financeiro na região monopolizando o processo de acumulação foi o caso da Fazenda Bamerindus que era do Banco homônimo, atual HSBC. Situada em Xambioá no Tocantins com uma parte de seu território no Estado do Pará, no município de São Geraldo do Araguaia. Também envolvida em crimes ligados a presença de trabalho escravo em suas terras, a Fazenda foi ocupada por posseiros em 1982.

 

Na Palmares tivemos a oportunidade de conversar com o Sr. “Beto” que era adolescente quando sua família participou do movimento de ocupação da Bamerindus. Nascido no Ceará no município de Parambu no sertão de Inhamuns sua família se lançou na região de fronteira capitalista objetivando a “conquista da terra” e a fuga da seca. Foi para o norte de Goiás atual Tocantins em Carmolândia. Não conseguiram seu objetivo no município. Foi quando apareceu a oportunidade da Fazenda Bamerindus em 1982. Na luta pela desapropriação aceitaram uma proposta do antigo GETAT – Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins para serem remanejados para o CEDERE I (Centro de Desenvolvimento Regional) em Parauapebas (PA).

 

É neste cenário que vemos a mudança da matriz econômica da região: do extrativismo vegetal aos extrativismos madeireiro e mineral. Esta mudança se deve em grande parte ao caráter de fronteira, que está associado ao papel da região para a economia nacional e global, além de suas especificidades. A Amazônia é um espaço de intensificação capitalista recente e, por isso, uma área de forte migração. Enfim, hoje temos uma nova fase de surto modernizador, que não deixa de ser o mesmo surto modernizador de outrora, só que com novos sujeitos e com cenários diferentes.

 

Podemos apontar, então, que temos uma nova configuração das classes e de luta no campo brasileiro a partir da feição monopolista que o capitalismo assume. Assim, o caráter autoritário do des-envolvimento permanece não só nacionalizando a questão agrária, mas, também, mundializando-a. Temos, agora, associado à velha oligarquia agrária patrimonialista brasileira, os agentes do agronegócio “moderno” sejam eles nacionais ou internacionais. Por outro lado, se apresentam novas formas de organização dos camponeses como o MST, os Movimentos e articulações em redes dos Quilombolas, Ribeirinhos, Indígenas, Pescadores, Extrativistas.

 

Vemos que na mesma mesorregião coexistem diferentes interesses e, portanto, a lógica da conflitualidade é o tom necessário para entender a dinâmica do espaço da fronteira. A concepção aí reside em demonstrar duas perspectivas de luta que se desencontram. Na Terra Indígena Xicrin do Cateté reside à luta de uma parte do povo Kayapó pelo reconhecimento de seu território. Localizada no campo da luta pelo reconhecimento, vinculada à uma dimensão identitária na Amazônia. Vizinhos, os Assentamentos Palmares I e II estão localizados em outro tempo-espaço da fronteira apesar de estarem na mesma mesorregião. Sua luta vincula-se ao campo da redistribuição do recurso terra, luta pela redistribuição, vinculada a uma dimensão material, de existência econômica. Temos clareza que uma luta é portadora das características da outra. Porém, a motivação principal é que se diferencia. Para complexificar a questão, temos a presença da Vale que, através da anuência do Estado, gerencia territórios públicos como as Unidades de Conservação de forma privada e enclausurada chamando ironicamente esses territórios de Cinturão Verde.

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