A presença dos EUA na América Latina e a mentalidade colonizada da elite brasileira

Por Bruno Lima Rocha

Abertura: Neste texto, realizo uma reflexão ao estilo ensaístico, observando como a juventude das classes subalternas brasileiras termina por se mimetizar com o andar de cima e, através deste, sendo duplamente alvo de ataques ideológicos, na forma tanto da aculturação como da incorporação de valores de mercado no dia a dia. O consumo suntuoso e a bolha de crédito, bandeiras do pacto lulista (conservador e capitalista), operam reforçando esta carga valorativa. Vamos ao debate.

Um tema recorrente

Em artigos anteriores com esta mesma temática abordei o Tratado Transpacífico (TPP) e a necessidade da superpotência em tentar o contra-ataque à expansão chinesa e sua aliança que se solidifica com a Rússia. Em outros momentos, analisei o avanço das propostas de tipo economia integrada com pouco ou nenhum valor agregado, como é o caso da chamada Aliança do Pacífico, composta por Chile, Bolívia, Peru e México. Dentre estes, dois países, México e Colômbia, são os dois mais afetados pela ingerência dos Estados Unidos, especificamente através de sua agressiva política anti-drogas, ou alegadamente anti-narcóticos, comandada pela força conjunta da Agência Federal Antidrogas (DEA) e da Agência Central de Inteligência (CIA).

Para além da Aliança do Pacífico, observamos no caso completo latino-americano, temos atualmente a interdependência de todos os nossos países para com a China e sua enorme capacidade de investimento, além da eterna “doença holandesa”, quando nossos países, Brasil à frente, insiste em operar como plataforma agro-exportadora e extrativista, focando no mercado chinês como novas fronteiras comerciais. Já foi debatido neste espaço a absurda primarização das estruturas produtivas brasileiras e dos países Hermanos, assim como o equívoco de apostar em soluções transitórias do pacto de classes, onde o populismo (ou o conceito de liderança carismática policlassista) quase sempre termina por roer a corda.

Se há uma rara exceção deste é o caso venezuelano, onde ao menos o governo de Chávez e seu sucessor montaram uma retaguarda mobilizada. Fica a crítica para Venezuela, Bolívia e Equador no sentido da necessidade de liderança carismática, de permanente manutenção das estruturas de poder e da falta de protagonismo do povo organizado. Se estas condições se materializassem, seria possível pensar em saídas de democracia semidireta e formas de poder emanados sem a intermediação das burocracias profissionais.

A Doutrina Monroe agora se aplica através dos “Diálogos Interamericanos” e do capital financeiro

Se já não temos a presença ostensiva do Império, sendo que as ameaças de aplicação da Doutrina Monroe não se fazem tão presentes como no período da Guerra Fria, é um terrível engano subestimar a projeção de poder de Washington sobre nossas sociedades. O México é um caso a parte, país dilacerado pela expansão sub-imperialista ainda no período do Destino Manifesto e hoje tem grande parcela de sua economia – legal e ilegal – vinculada ao fluxo de capitais dos EUA. Já os países do sistema Caribe-Antilhas, incluindo os centro-americanos, ainda têm toda sua história no tempo presente vinculada aos desígnios e posicionamentos do Comando Sul do Império.

Na América do Sul, através do Plano Colômbia e do Diálogo Interamericano e seu programa de “prevenção às drogas” (ver: dialogo-americas.com) as agências de espionagem e as forças regulares realizam um cerco estratégico sobre a Amazônia, especificamente cercando a Amazônia Brasileira com tropas terrestres. Já no Paraguai, ainda com a alegação de combate contra ilícitos e através de acordos bilaterais, duas bases estadunidenses estão assentadas sobre o Aquífero Guarani. A todo este potencial de agressão somemos o cerco ao Atlântico Sul (EUA e Inglaterra) e a agressividade da Aliança do Pacífico, costurada com Tratados de Livre Comércio (TLCs) de seus membros com os Estados Unidos.

Mesmo com todo o poderio militar e a tradição imperial, ouso afirmar que o maior dano dos EUA sobre nossos países não está hoje em sua dimensão econômica ou bélica, e sim no âmbito financeiro (pelo regramento e o esquema de fraude estrutural articulado no eixo Nova York-Londres) e, em escala superior, no plano da cultura e projeção ideológica. O conceito de soft power – poder branco ou suave – cunhado pelo professor de Harvard Joseph Nye, forma a melhor definição de domínio difuso dos Estados Unidos no Continente. Não haveria concordância total e por vezes sequer parcial com a política externa de Washington, mas é tamanha a difusão de valores, cultura, presença institucional e educacional (incluindo o sistema universitário), além da obrigatoriedade do domínio da língua inglesa que é perceptível esta onipresença simbólica do Império.

O Império está presente em todas as classes sociais brasileiras

A onipresença acaba por influenciar na formação de mentalidades, com especial efeito no maior país latino-americano. Ainda que exista uma maior aproximação nos últimos doze anos, estruturalmente a sociedade brasileira (através do colonialismo interno e subserviente da elite dirigente e das frações de classe dominante), ainda reproduz as formas mais banais de colonialismo, colocando-se de costas para o Continente. Algumas evidências deste doentio afastamento do Brasil para os países Hermanos podem ser facilmente verificadas: temos elevada desinformação de nossas conjunturas comuns; boa parte da classe média e quase toda a classe alta brasileira fala inglês, mas sequer arranha o castelhano; o consumo cultural em língua espanhola de América é ínfimo se comparado com o lixo cultural em língua inglesa, incluindo todas as subculturas deste período da internet.

Infelizmente o fenômeno atravessa todas as classes, incorporando na massa da periferia e subalterna os códigos das juventudes do Império; mas sem trazer os elementos de rebeldia e antirracismo de latinos e afro-americanos. Os jovens nascidos na era da comunicação cibernética estão com menos freios para incorporarem as marcas e a cultura do consumo suntuoso que marcam a vida cotidiana nas metrópoles dos EUA. Isto pode ser tristemente evidenciado observando a presença da juventude de periferias em shopping centers brasileiros, trajando roupas com mímicas e trejeitos estadunidenses.

Aculturação e colonialismo de mentalidade formam o binômio que estruturam o andar de cima latino-americano e seu complexo de vira-latas. Para desgraça coletiva, o país que mais adere ao código simbólico e projeção cultural eurocêntrico e anglo-saxão é justamente o Brasil. Parece que vivemos sob a eterna maldição do golpista de 1964 e general do Exército de Caxias, Juracy Magalhães, ao proferir a ignóbil frase: “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil!”. Mais estratégica do que a frase entreguista clássica é a definição do Pentágono e da Casa Branca a respeito do peso relativo do Brasil para o Continente: “para onde for o Brasil, irá a América do Sul e talvez toda a América Latina”. As assertivas, já de domínio comum e ultrapassando o terreno apenas de especialistas em história e geografia política e relações internacionais, indicam o óbvio. A formação de mentalidades dos brasileiros é o embate estratégico para os latino-americanos.

 

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